Letras Cadentes

    • Àqueles(as) que tinham quatro paredes em volta de si. Um dia, desenharam uma porta.

  • Agulha estrangeira

    Um dia vazio em que nada era urgente. Nublada como o horizonte, ainda assim a garganta aspirava sentido. A indefinição, o aperto, o fogo, a falta de compasso… Tudo ela trazia na garganta, não no peito. Traqueia fechada, peito aberto.

    Havia um tempo que Luíza amarrava os cadarços, virava a chave do apartamento e só se dava conta dos passos percorridos há quilômetros de casa, quase a tempo de voltar. Religiosamente, dia após dia. Expirava a própria potência sem constatá-la. Uma voz incógnita lhe apontava as setas, ditando-lhe certo e errado. O dever precisava ser feito, sem refletir.

    A bem da verdade, as coisas não eram preto no branco. A razão alcançava sombras das ideias. Para pertencer à raça humana, a consciência podia tocar aqui e ali. Pensava o mínimo.

    A brisa no rosto era o toque de Deus, e dissera-se-lhe que aquilo era bom. Alguém lhe receitou alimentos orgânicos, e os consumia desde então. Luíza sabia, sentia, previa o que lhe fazia bem. Os olhos de amêndoa focavam pássaros há milhas de distância, escusadas lentes de aumento. A pele sentia frio e os pelos se eriçavam involuntariamente. Estava viva; faltava apenas existir.

    Ninguém ousaria dizer que não era uma pessoa. O sangue pulsava, o suor lhe escorria pelas costas, a boca educada mastigava rítmica o que lhe pudesse nutrir.

    Mas corria em Luíza o fluido da letargia, o canto dos aceites, a paz dos acordos, a dor que não se vence pois nem se sabe que está lá. Nascera com noções de ética, mas as regras do viver não eram suas a criar, somente a seguir. Repetia passos de outrora sem protagonismo. Embarcara no catamarã da vida e saboreava o imprevisível; passageira, não capitã.

    Ainda bem. Que mazelas estariam a seu encalço caso picada pelo mal de saber? Com que respostas certas perguntas poderiam lhe desgraçar? Pior… E se as respostas fossem ocultas, impenetráveis, inexistentes? Remédio é não querê-las; a cura para o desejo é o desejo de soltar.

    E deu-se conta de que saíra de casa quando um extenso galpão comercial tomou o lugar dos prédios do bairro em que morava. Atravessara cinco quarteirões em ritmo agitado e a avenida agora abria a curva pela qual voltaria para casa. Um longo dia de trabalho lhe aguardava lendo jornal no sofá.

    Parou para descansar como se deve e, então, aconteceu. Luíza intuiu o trágico. Em segundos, o estômago explodiu em ácido. De explicação a saber, uma agulha espetou-lhe a mão que ela encostara em uma árvore de vasta sombra. Quem a enfiara ali? Como fixá-la com a ponta perfurante para fora? Haveria agulhas de ponta dupla? Quem ditara como uma agulha deve ser?

    A tomada de consciência. A origem das coisas. A linha que une todos os seres – sapiens, animais, vegetais e minerais. O inexorável que sempre vem, nesta vida ou na próxima.

    Luíza apresentou-se à bússola interior, à voz da intuição, à dor e à delícia. Estar viva na própria presença seria algo a mais que prazer. Levou o dedo ferido à boca. Existir lhe devoraria certezas a fio.

    dezembro 3, 2024

  • Bendita

    Maria veio ao mundo imaculada, um chorinho contido em mil novecentos e noventa e um. Sem nome composto para não desperdiçar a saliva dos outros, só ‘Maria’. Não podia ser gente como cachorro é cachorro ou cobra é cobra. Sua natureza já lhe fora desenhada há séculos a fio.

    A mãe bradava com orgulho que ela nunca teve cólicas. Foi o mais tranquilo dos bebês, não deu trabalho algum. E, de tanto poupar os outros, aprendeu que agradar era a fórmula mágica, ceder era condição primeira para existir. O próprio valor era proporcional à capacidade de cuidar. Os dedos cresceram e se mexiam rápidos sobre um violino. Em contraste com a música, a voz de Maria emudecia cada dia um pouco mais.

    Os anos lhe somaram dotes femininos. Leitora romântica assídua, sensível às sutilezas do amor. Cozinheira de mão cheia… O prazer, entretanto, era nutrir os outros, não a si. Não sabia por quê.

    Intérprete de músicas, sabia encantar sem expor incovenientes emoções difíceis. Sempre asseada, pose de dama, gestos discretos. Suave e cheia de graça como se deve ser.

    Mas Maria guardava um segredo, uma bomba, um mistério; um animal que lhe crescia no peito e lhe mordia as entranhas ávida e lentamente, sem clemência ou pudor. A fera vomitara sangue pela primeira vez meses após o aniversário de treze anos. Desde então, movia-se sádica, primeiro entre as pernas, depois pelas mãos.

    Com o passar do tempo, o animal de Maria se enchia de coragem e desbravava novos lugares. Ela não o expunha, porém; mantinha-o oculto em si.

    O bicho tremulava internamente sem manifestações externas de sua presença. Por fora, Maria era só uma moça. Com duas décadas de vida, habituada a tudo guardar, ela sentiu a besta cravar as garras em seu pescoço e sufocá-la até a visão escurecer.

    Um dia, conformada à ação recorrente da fera, Maria pecou. Furtiva, os dedos cruzados para que ninguém do seu agrado a visse, abocanhou a vida de tal forma que todos os caminhos se lhe fecharam para trás. O estrago estava feito, o andar cravou-se teimoso para frente; não queria mais voltar.

    Por um milagre nada celeste, Maria pensou e o pensar arrebatou-lhe todas as esferas da vida. Pensava até sentir náusea, pensava até o outro não ser mais o outro, mas um ser tangível que, qualquer dia desses, ela poderia personificar.

    E tudo se encharcou de uma dor imensa, transpassante, gultural. Domesticara-se desde muito cedo a adoecer pouco para não dar trabalho – afinal, o dever de cuidar era seu. Mas por dentro, na calada da noite, sob a luz de um céu sem lua… A besta-fera. Essa vontade de subir na mesa, desatar os seios, profanar palavras… O desejo de viver uma história em que nenhum príncipe precisasse chegar.

    Sem dó ou juízo, o animal engolia os pedaços de Maria com ânsia de fazê-la oca. A culpa de existir era tanta que, a certo ponto, Maria parou de lutar. Nem o autoextermínio lhe era de direito; incomodaria os outros, lhes traria desconforto. Não adiantava se jogar de um prédio; sua única licença era a de ser mulher.

    O animal interior lhe devorava o âmago e já se tornara um amigo, fonte de possível salvação. Sem órgãos, Maria ansiava tornar-se incapaz de sentir qualquer coisa. Um fio de esperança se iluminava no fundo de sua cabeça.

    Talvez, torná-la vazia fosse ato de bondade. Tampar os ouvidos, deixar a poça de vômito secando no chão da sala sem limpá-la de imediato… A ignorância é bênção; desaprender, de uma vez por todas, o que se esperava que ela fosse enquanto mulher.

    Maria envelheceu, fez sua passagem e, para ela, o além reservou as altivas portas do Inferno. Ao chegar, soprou-lhe o rosto um calor não experienciado em vida, sentiu inundar-lhe um abraço ou um grito ou um afago da mais pura novidade – uma voz feminina sem espectro físico exclamou: ‘Aqui, você pode ser’.

    As portas de ferro se abriram e ela seguiu adiante. A voz bradou novamente palavras de conforto e aceitação.

    Por ironia ou ação de um sábio, o lugar estava repleto de condenadas, nenhum homem ocupava aqueles domínios endiabrados. O ar era de aconchego; ao longe, risos tomavam conta do tempo e espaço nos mais variados tons da escala em decibel.

    E Maria deparou-se com uma infinidade de senhoras alinhadas em cadeiras largas, acolchoadas. Todas confortáveis de pernas abertas sem o tique de tentar cobrir as partes; todas deixando o vento arejar os próprios pelos, sem exceção.

    ‘O Inferno é meu lugar’, pensou. Estava livre para não fazer os outros felizes. Podia rir-se de ser a vilã. Viveria histórias com dois ou três ou até quatro lados, se espreguiçaria com as nádegas viradas para cima sem medo de a Europa ou os bons costumes lhe tentarem colonizar.

    A morte chegara e, com ela, a chance de ser um indivíduo. Seria bruxa, megera, uma cretina… Viveria a plenos pulmões sem culpa. Amém.

    outubro 27, 2024

  • Resumo

    É que isso tudo me atravessa. De um jeito que os bêbados, os trêbados, os héteros… Só o corretor me entende. Dói simplesmente ser. Ver. Existir.
    A velocidade em que o carro avança é proporcional ao desespero em que o espírito tenta se encontrar. Nos trancos e barrancos do celta sob o motorista que trafega ao telefone e tenta não bater, a gente tenta ser certo.
    E não consegue.

    Mas existe. O alarme do carro ultra-moderno apita à janela, acordando todo o bairro. É fácil acordar o bairro inteiro. A brisa aguda que atravessa o prédio. O porteiro, alheio ao pedido que chegou. O excesso de opções. A falta.

    Me entrego. O eu escraviza. A boca falha, e seca. O beijo é caro. A rotina me come dos pés e, de volta, aos pés. O amigo me mandou escrever.

    Sei lá se uso além do vocabulário adquirido. Trinta anos. Os ombros se impõem porque querem. Sem consulta ao sinônimos ponto com ponto bê erre. Estamos todos em um buraco que, de tão fundo, é cômico. Ninguém consegue ser o que deve. Rá rá rá. Ainda ganhamos dinheiro. Estudamos tanto… Euro… Dólar… O que vale mais no mercado argentino? Qualquer coisa, menos reais.

    Eu te amo, e você foi o único a não entender o quão dilascerantemente isso era tudo. Neologismo. Nós dois. Uma pena. Alguns anos depois, canção.

    Ah… As veias da forma que as sinto. Sangrias que não têm fim. Perco as contas e agradeço o que fez por mim.

    Pare e veja: exatamente a quem devia chegar esta mensagem, o caminho faz-se torto, o discurso vira uma frase atribuída à Clarice Lispector… Você vai me olhar com aquele ar de “eu não entendi nada”.

    Vou ali amassar o rosto com brumas mais caras que tua tez.

    abril 13, 2024

  • Privacidade

    Não era constante. Algumas tardes aniquilavam o peito de Leonardo como um submarino implodindo em águas profundas – a dor lhe comia por dentro, empurrava um pouco mais a pele já côncava, desenhava os ossos da costela para qualquer leigo observador ser capaz de contar.

    Outras manhãs, não raro na imediata sequência, lhe traziam lucidez e esquecimento. Sob o canto antigo dos pássaros, ele via que as coisas somente existiam, completamente alheias a ele, simples e independentes; para o mundo inteiro, pouco importava ele errar ou acertar.

    Quando o peso era tamanho que mal conseguia levantar da cama, a Leo parecia que Deus lhe havia esquecido. As olheiras marcadas, o pelo do rosto formando ninhos dos quais subia um cheiro primitivo, estranhamente acolhedor. Quando acordava no dia seguinte e se aceitava, de súbito não sentia mais vontade de escrever com palavras difíceis, parecer inteligente, afirmar qualquer tese ou força… Apenas ser.

    É que Leonardo era tudo e qualquer coisa entre as linhas do dicionário, um misto de febre e plena autocompreensão. Acaso o desvelassem, seria apedrejado. Não cometera os crimes graves da lei, mas trocava de personagem conforme as demandas de cada ciclo que prometia o acolher.

    Passou anos a fio pensando nas próprias palavras. Como elas seriam recebidas pelos ouvidos alheios? O que diriam, meu Deus? Por sinal, tinha a forte impressão de que Ele era qualquer coisa, menos um homem branco e velho. Antes da escrita, lhe angustiava a escassez da escuta. Para que falar, se ninguém poderia lhe ouvir?

    Às vezes, o palhaço… Quem sabe, o filósofo. Se preciso fosse, tudo era relativo. Queria ver, ouvir, morder com os olhos dos outros. Os rótulos… Sem sucumbir a eles, jamais conheceria o amor.

    Na calada da noite, Leonardo despiu-se da pele de cordeiro e sentiu a pele de lobo também se desfazer. Retirou-a também; sob ela, pele de cordeiro, removível como a primeira.

    Quantas camadas continha sob si?

    E se o mundo não tivesse mais leitores suficientes para seus livros? A vaidade é desses demônios que apodrecem a escrita, mas como escapar da projeção que se cria de si e do deleite em vê-la aceita? Como ser cru, visceral, sem uma audiência? Como limpar-se de tudo – dos aplausos, dos sorrisos, do apego ancestral por pertencer?

    O público esperava o preto no branco, o lobo ou o cordeiro, o bem ou o mal. Depois de um tempo, o público já não existia mais.

    Leonardo não contou ao ciclo de amigos músicos sobre o prazer que sentia em estar em silêncio, em não ouvir coisa alguma, como um explorador espacial. Ao grupo culinário, não confessou seu desgosto profundo em cozinhar por obrigação.

    Aos amigos da escola, ainda mostrava a face extravagante, incapaz de revelar seu novo vício em banhos longos e quentes. Mostrava ao amor de sua vida tudo e tão somente daquilo que a fizesse feliz.

    Um monstro, um louco. Uma barba horrorosa. Tez desleixada, uma conversa sem fim com bichos… Coisa de quem perdeu o juízo, precisa de ajuda, não é capaz de caminhar entre os homens nem mais uma vez.

    Oi, Deus. Já faz um tempo que eles só sabem do que eu os deixo ver.

    novembro 30, 2023

  • Votos de Casamento

    Não vou negar: no início, senti estranheza. Como assim eu podia ser eu mesma e isso não te assustava? Ao seu lado, eu só sentia mais e mais vontade de viver minha verdadeira essência, não me transformar em alguém que se encaixasse em padrões ou me tornar outra pessoa apenas para te agradar.

    Comecei a fazer alguns testes. Fazia caretas, dançava estranho, dividia os pensamentos mais absurdos… tudo que pudesse te fazer sair correndo na primeira oportunidade. Por incrível que pareça, você entendeu todas as minhas piadas. E riu comigo; e completou com trocadilhos ainda mais infames. Esse foi um dos milagres que você me apresentou: amar e ser amada sem que eu precisasse ser alguém além do que já sou.

    Desde que te conheci, comecei a me levantar da mesa nos lugares onde o amor não é servido e enxerguei o quanto eu e minhas ideias têm valor e merecem respeito. Minha régua sobre como uma relação deve ser aumentou muito. Não me interessa mais mudar a mim e aos outros; cada dia mais, quero ser feliz antes de tentar agradar qualquer um.

    Com você, os únicos limites para meu estudo e minha carreira são aqueles obrigatórios para manter a saúde. É uma bênção te ver crescer enquanto posso fazer o mesmo sem culpa de investir em mim também.

    E só eu sei o quanto sou grata pelas pessoas aqui presentes que te criaram e fizeram de você uma das pessoas mais especiais que conheço: você cuida, acolhe, ajuda a todos que pode, não julga aparências, compra brigas por justiça e, mesmo com timidez, ouve, perdoa, sempre pede desculpas e enxerga o melhor em todos nós.

    De hoje em diante, prometo cuidar para que nossa alegria seja estrondosa, potente, ultrajante – um exemplo de como o amor pode ser paz e, ao mesmo tempo, emoção. Na tristeza, quero estar ao seu lado nunca para fingir que ela não existe, mas vigiar para que ela seja sentida de forma honesta, sem máscaras que tentam maquiar a dor. Nós vamos enfrentá-la juntos e estarei aqui pra te lembrar de que tudo passa, exceto minha fé em você.

    Da sua saúde, cuidarei para que sempre te permita viver seus sonhos, experimentar novos sabores e conhecer este mundo imenso e tão diverso. Estarei ali disponível para voar ao seu lado e vibrar com todos os voos que você também dará sozinho. Afinal, não somos duas metades, mas dois inteiros – e é exatamente por isso que, juntos, somos tão fortes.

    Por fim, quando a doença chegar, prometo estar exatamente como nesta rara noite de insônia em que escrevo meus votos: presente, atenta, grata por ter você como minha família. Quero ser seu ponto de paz e equilíbrio e te lembrar de que minha casa é qualquer lugar onde você estiver.

    Nos anos 70, minha autora favorita escreveu que “tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida”. É raro acontecer, mas vou ter que discordar do que ela disse: no mundo que compartilho com você, tudo começou com um “eu também”.

    novembro 6, 2023

  • Não

    Alberto não avisou a ninguém que pegaria o carro e seguiria para longe, bem longe dos que amavam quem achavam que ele fosse, não quem ele era de fato. Por amor, ficava quieto, não se abria, sempre calado, e todos o julgavam dócil e fácil de lidar.

    Balançava a cabeça em concordância, cedia fácil, deixava-se guiar pelo que convém. Dentro do peito, necrose. Aprendera muito cedo que vencer era jogar o mesmo jogo que o oponente; nem visto, nem lembrado, pensava ter paz. Só permaneciam no alto os anjos que repetiam ‘amém’. Antes da fuga, a estima dada a Alberto era diretamente proporcional a quantas vezes dissesse ‘sim’.

    É por isso que ninguém compreendeu quando, na calada da noite, o caçula deu partida no motor abafado, sem despedidas, sem alarde, com um pouco de comida estocada no banco de trás. Souberam, sete meses depois, que viajara de Goiás a Floripa, sem nenhum contato amigo, com uma mão na frente e outra atrás.

    Contou por telefone que, pouco antes da reserva zerar, conseguira um emprego de auxiliar administrativo e usaria todo o salário para se manter sem luxos e pagar um curso de design de jogos. Estava bem, mas não queria nada dos pais. Não voltaria à carreira de advogado sob hipótese alguma. Os ouvidos do casal no outro lado da linha transitavam confusos entre o alívio e o choque.

    Resoluto, Alberto desligou o telefone. Tomou banho, trocou de roupa e deixou-se doer. Todos os tecidos da derme latejavam por enfim desatar-se do controle, da tirania, da castração. Agora, pensou, poderia curar-se, tinha uma vida pela frente, faria diferente, alargaria as cordas vocais.

    Cinco anos depois, sua primeira filha nasceu. Tinha os olhos grandes, atentos ao mundo e, em tudo, parecia diferente do antecessor. Desde os primeiros sons, mal bambeava na palavra, pensava rápido e encarava profundo, fazia da própria vontade a mais firme das leis.

    Em uma tarde muito tempo à frente, a jovem oradora da turma começou o discurso de formatura com palavras que encheram de lágrimas a dura – e tão enrijecida de travas – face do pai. Enquanto este ainda lutava para se libertar da culpa, do peso do mundo inteiro pelo simples existir, a jovem moça levantou-se e disse:

    O que tiver de ser, sejas
    Mas não assim, baixinho
    Sempre a dar, sem receber

    Finca teus planos na terra
    Convida ao coro os passarinhos
    E torna grito de guerra
    A voz da tua intuição

    Arma-te de mais perguntas que certezas
    Deixa ir todo o desejo
    De ser aceito e sacrificar a si

    E, veja bem, eu te prometo
    Os temores te olharão no olho
    Será tua a chave-mestra
    Não há juízo mais poderoso
    Que, gentilmente, dizer ‘não’

    setembro 18, 2023

  • Longe da capital

    Sentado em seu banco de madeira à porta, contando de cabeça os sabugos de milho recém-colhidos, tecia um cesto de palha com as mãos naquelas bandas em que ainda não se conhecia o telefone móvel. A testa enrugada, manchas de Sol lhe estampando a tez, tinha o coração agreste e soltava grunhidos quando os bichos ameaçavam se atracar no celeiro. Barriga cheia de tapioca e café coado, galinhas a salvo de qualquer raposa sagaz. Isso era tudo, c’est fini.

    Seu dia era assim: o galo anunciava a aurora às 5 da manhã e ele logo levantava, aguava o rosto e punha o leite para ferver. Esvaziava a caneca de alumínio lambuzando os bigodes, mordiscava o pão dormido com meia dúzia de dentes, limpava a varanda e avançava para a horta do quintal.

    Apressava-se a alimentar as aves, as vacas, um jabuti. Escolhera para este o nome de “Ligeiro”. Ria sozinho da própria piada a caminho do paiol.

    Arava a terra antes do Sol a pino, colhia os ovos, debulhava alguns brotos de feijão. A cada quinze dias, um moleque da cidade o visitava; trazia especiarias e modernidades, e retornava para a zona urbana com produtos da roça e potes de curau.

    Um pouco mais tarde, o firmamento anunciava a noite e, estando os bichos recolhidos e as tarefas feitas, o velho se guardava em puro êxtase e paz. Os grilos cantavam lá fora, Ligeiro já pregava os olhos, o gato brincava com as sombras do lampião. Na mesinha, a foto da falecida esposa e outros santos. Vinham à mente lembranças dos dois erguendo a choupana, plantando abóboras, trocando prosa a perder.

    Não tiveram filhos, nunca ouviram falar dos United States, não foram alfabetizados nas artes de vencer a guerra. Hoje, ele reproduzia na terra tudo aquilo que ela lhe ensinara. “Desenrola aí, José!”. E desenrolava.

    Com seus modos rústicos, José só tinha cabeça para acabar com as ervas daninhas que matavam suas hortaliças. Todos os dias, contava anedotas às cabritas e acariciava o pescoço da vaca que lhe dava leite. Era bruto em modos, mas seu coração tinha pouco a polir.

    Um dia, deu com as neuras da capital. Ouviu no rádio que Getúlio Vargas ceifara a própria vida apertando o gatilho contra o rosto. Ficou meio bobo; a testa suava tentando entender as razões.

    “José, não estás pronto para o mundo!”, alguém dissera.

    Enganava-se a voz. Há tempos, ele era um dos poucos a, finalmente, o decifrar.

    setembro 17, 2023

  • Exímia

    Há desses escritos indiscretos que, por exalarem a alma de quem os prepara, tornam-se poemas. Eu  não costumava acovardar-me; não fazia o tipo de rapaz que se rende à caneta ao prever o abate. Fui uma vez. Ela passaria apressada, seu perfume pairaria pelo ar e minhas mãos se tornariam mais sujeitas aos delírios involuntários que às decisões racionais.

    Por mais que o dia em que a conheci tenha me apinhado de marcas,  eis a principal: cabelos pretos, olhos marrons, vestido azul.  Para mim, tudo deveria ser sempre muito bem explicado. Com ela, as coisas fugiam da regra; o pouco sentido de tudo virava nenhum.

    Naquele tempo, tomei o hábito da bebida e dos cigarros. Na segunda, cuba libre, e a vida girava, em volta de tudo e às voltas de nada. Não havia de ser diferente – do que o bêbado não se lembra, o coração não sente. Mas desde que conheci Exímia e ela me olhou como nenhuma outra mulher, percebi que a prata do cinzeiro refletia a luz do bar.

    Até hoje, nada lhe teria feito má aos meus olhos, como os bons companheiros tanto alertavam. Ela me dizia verdades brincando para não nos afastar, e a bondade estava clara em seu nariz. A natureza era sábia em suas obras; mais do que nós. Tinha que ser – eu esperava. Tinha que ser.

    Seu balançar era doce. Meu corpo se debatia de calma quando era de paciência o que ela precisava, e se aquietava de abalo quando ela ria do medo em minhas mãos.  Ao seu lado, doíam essas dores de praxe – a face de quem sofreu demais, mas convoca o sagrado por uma derradeira emoção.

    Eu queria doer novamente; só mais uma vez. Esquecer as regras que cresciam lá fora, cabular os fóruns, uma batida na mesa, duas ou três. Quando encontrei seu olhar, foi-me dado não um passatempo acessório, mas a peça principal.

    Só que Exímia precisava de um tempo – não para encontrar-se; queria refazer-se. Contou-me que o fazia de tempos em tempos. O problema sou eu, não você.

    A boca tocou-me os lábios, desculpou-se por não ser quem eu sonhara. Não era verdade. Lá estava ela; grandes olhos abertos e meu coração na mão.

    Porque ela me lia também, e transformava em diálogos meus monólogos sobre ciência. Sua vida era a fuga; “sua voz permitia viver”. E eu precisei do tempo que Exímia reivindicou para si. Ajudei a carregar suas malas. Às suas meias, seguiam minhas escolhas e chão.

    Um dia, pegou em meu queixo, olhou para mim e ameaçou aparar minha barba. O cheiro de lavanda vinha das roupas no varal – cruas e quase guaradas. Seria sempre eu a não merecer sua significação.

    Não fui o mesmo desde que conheci Exímia. E, embora meus pés se trocassem ao encontrá-la, o aperto no peito era compensado por longas horas de ardor.

    Desde que conheci Exímia, passei a entender o que é sentir-se nu sem tirar uma peça de roupa. Ela conhecia a diferença entre meu riso de autoafirmação e o de escape. Mover-me em sua frente a fazia enxergar o óbvio: todo movimento seu me fazia embriagar a marcha, descer ladeira, tropeçar. Tentei entender que remédio havia em sua mania de viver o hoje. Eu ainda levava no bolso fantasmas demais.

    Exímia precisava de um tempo e eu precisei repensar as certezas que construíra até ali. Ela precisou tomar o trem das seis quando eu precisei ser tomado, esmagado para não morrer. Estávamos prontos às cinco e, enquanto esperávamos a locomotiva sentados no banco, não tive coragem de lhe pedir que ficasse.

    Seria a sétima vez.

    Ensaio um pigarro.

    Acendo a chama que o provocou.

    Escrevo-lhe agora. Com um movimento que fuja à sua suspeita, me certifico de que meus sentimentos a acompanhem na mala até Plymouth.

    Ela era inacreditável. Necessária, nunca obrigatória. Eu a conheci, rendi-me às letras sobre o papel e escrevi canções a seu respeito. Minhas gavetas ainda guardavam peças que ela se esquecera de levar. Sua falta seria sentida. Alguns anos mais tarde, a minha também.

    setembro 17, 2023

  • Afluência

    A classe prendeu a respiração quando ela começou a falar; sua voz era rouca, as pálpebras cansadas de manter-se em pé. Lá fora, a garoa, lavando o sangue que esguichava das palavras. Às vésperas da aposentadoria, chegara enfim a hora de dividir com a turma suas próprias memórias póstumas – tudo que acontecera desde o dia em que morreu.

     Por toda a sua vida, lecionara prosa e poesia, escolas literárias, Álvares de Azevedo, Lima Barreto, parnasianismo e maldizer. Clarice completava exatos 35 anos de magistério e estava pronta para tardes livres, passeios ao parque, noites bem dormidas e consommé*. Os alunos a fitavam – ela relatava amores, tecia planos, enumerava coisas que só há pouco percebeu.

    Na manhã de um sábado, sentada na varanda de casa, ouviu um forte zumbido de abelha que ia e voltava, encolhia-se para logo se agigantar novamente. O barulho não passava de um plano de fundo pois, entre um gole de bebida quente e outro, desligava-se devorando as páginas iluminadas pelos primeiros raios de Sol.

    De repente, o som parou. O silêncio ensurdecedor a distraiu da leitura e ela levantou a cabeça, procurando instintivamente pelo inseto que, como as hélices de um ventilador, lhe ajudavam a dormir.

      Em um canto do teto forrado, uma aranha movia rapidamente o corpo e envolvia a abelha em uma teia superior às obras-primas da engenharia. A pequena presa se debatia sem emitir sons; agitava as pernas, mexia as asas, tentava escapar desesperadamente da trama que seria sua morada final.

    Em menos de 30 segundos, a batalha cessou – o aracnídeo cumprira seu objetivo e Clarice rebentou: todas as dores do mundo irromperam de seu peito. Doeram-lhe as agonias da terra, as mazelas da guerra, o derradeiro instante em que, sozinhos, todos os seres agonizam e perecem, a ordem fria e brutal da cadeia alimentar.

    Tinha 31 anos quando veio a falecer. Aos 66, no último dia de aula da classe de 92, dividia com os jovens pupilos tudo o que acontecera desde que fora arrebatada assim, sem mais nem menos, por uma Filosofia que só lhe trazia mais perguntas.

    Era leve a forma com que falava de sangue, alvoroço, revolução, tão leve que os alunos não tinham escolha senão contemplar aquela cena de uma senhora curva exclamando tudo o que de mais improvável se poderia associar ao penteado contido e ao terninho até os joelhos em risca de giz. Ela queria despedir-se deles com histórias de grandeza e pequenez que vinham das tripas e cheiravam a sangue: o que ouvira da música que tocava apesar dela; o que vira das leis que se repetem sem ninguém perceber.

    * Consommé é  um caldo que se toma antes do prato principal e tem o intuito de preparar o nosso estômago para o prato seguinte; uma metáfora para indicar que a pessoa terá tempo para fazer uma refeição com calma após a aposentadoria.

    setembro 16, 2023
    autora, literatura, mulheres, poesia, prosa

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