Há desses escritos indiscretos que, por exalarem a alma de quem os prepara, tornam-se poemas. Eu não costumava acovardar-me; não fazia o tipo de rapaz que se rende à caneta ao prever o abate. Fui uma vez. Ela passaria apressada, seu perfume pairaria pelo ar e minhas mãos se tornariam mais sujeitas aos delírios involuntários que às decisões racionais.
Por mais que o dia em que a conheci tenha me apinhado de marcas, eis a principal: cabelos pretos, olhos marrons, vestido azul. Para mim, tudo deveria ser sempre muito bem explicado. Com ela, as coisas fugiam da regra; o pouco sentido de tudo virava nenhum.
Naquele tempo, tomei o hábito da bebida e dos cigarros. Na segunda, cuba libre, e a vida girava, em volta de tudo e às voltas de nada. Não havia de ser diferente – do que o bêbado não se lembra, o coração não sente. Mas desde que conheci Exímia e ela me olhou como nenhuma outra mulher, percebi que a prata do cinzeiro refletia a luz do bar.
Até hoje, nada lhe teria feito má aos meus olhos, como os bons companheiros tanto alertavam. Ela me dizia verdades brincando para não nos afastar, e a bondade estava clara em seu nariz. A natureza era sábia em suas obras; mais do que nós. Tinha que ser – eu esperava. Tinha que ser.
Seu balançar era doce. Meu corpo se debatia de calma quando era de paciência o que ela precisava, e se aquietava de abalo quando ela ria do medo em minhas mãos. Ao seu lado, doíam essas dores de praxe – a face de quem sofreu demais, mas convoca o sagrado por uma derradeira emoção.
Eu queria doer novamente; só mais uma vez. Esquecer as regras que cresciam lá fora, cabular os fóruns, uma batida na mesa, duas ou três. Quando encontrei seu olhar, foi-me dado não um passatempo acessório, mas a peça principal.
Só que Exímia precisava de um tempo – não para encontrar-se; queria refazer-se. Contou-me que o fazia de tempos em tempos. O problema sou eu, não você.
A boca tocou-me os lábios, desculpou-se por não ser quem eu sonhara. Não era verdade. Lá estava ela; grandes olhos abertos e meu coração na mão.
Porque ela me lia também, e transformava em diálogos meus monólogos sobre ciência. Sua vida era a fuga; “sua voz permitia viver”. E eu precisei do tempo que Exímia reivindicou para si. Ajudei a carregar suas malas. Às suas meias, seguiam minhas escolhas e chão.
Um dia, pegou em meu queixo, olhou para mim e ameaçou aparar minha barba. O cheiro de lavanda vinha das roupas no varal – cruas e quase guaradas. Seria sempre eu a não merecer sua significação.
Não fui o mesmo desde que conheci Exímia. E, embora meus pés se trocassem ao encontrá-la, o aperto no peito era compensado por longas horas de ardor.
Desde que conheci Exímia, passei a entender o que é sentir-se nu sem tirar uma peça de roupa. Ela conhecia a diferença entre meu riso de autoafirmação e o de escape. Mover-me em sua frente a fazia enxergar o óbvio: todo movimento seu me fazia embriagar a marcha, descer ladeira, tropeçar. Tentei entender que remédio havia em sua mania de viver o hoje. Eu ainda levava no bolso fantasmas demais.
Exímia precisava de um tempo e eu precisei repensar as certezas que construíra até ali. Ela precisou tomar o trem das seis quando eu precisei ser tomado, esmagado para não morrer. Estávamos prontos às cinco e, enquanto esperávamos a locomotiva sentados no banco, não tive coragem de lhe pedir que ficasse.
Seria a sétima vez.
Ensaio um pigarro.
Acendo a chama que o provocou.
Escrevo-lhe agora. Com um movimento que fuja à sua suspeita, me certifico de que meus sentimentos a acompanhem na mala até Plymouth.
Ela era inacreditável. Necessária, nunca obrigatória. Eu a conheci, rendi-me às letras sobre o papel e escrevi canções a seu respeito. Minhas gavetas ainda guardavam peças que ela se esquecera de levar. Sua falta seria sentida. Alguns anos mais tarde, a minha também.
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