Sentado em seu banco de madeira à porta, contando de cabeça os sabugos de milho recém-colhidos, tecia um cesto de palha com as mãos naquelas bandas em que ainda não se conhecia o telefone móvel. A testa enrugada, manchas de Sol lhe estampando a tez, tinha o coração agreste e soltava grunhidos quando os bichos ameaçavam se atracar no celeiro. Barriga cheia de tapioca e café coado, galinhas a salvo de qualquer raposa sagaz. Isso era tudo, c’est fini.
Seu dia era assim: o galo anunciava a aurora às 5 da manhã e ele logo levantava, aguava o rosto e punha o leite para ferver. Esvaziava a caneca de alumínio lambuzando os bigodes, mordiscava o pão dormido com meia dúzia de dentes, limpava a varanda e avançava para a horta do quintal.
Apressava-se a alimentar as aves, as vacas, um jabuti. Escolhera para este o nome de “Ligeiro”. Ria sozinho da própria piada a caminho do paiol.
Arava a terra antes do Sol a pino, colhia os ovos, debulhava alguns brotos de feijão. A cada quinze dias, um moleque da cidade o visitava; trazia especiarias e modernidades, e retornava para a zona urbana com produtos da roça e potes de curau.
Um pouco mais tarde, o firmamento anunciava a noite e, estando os bichos recolhidos e as tarefas feitas, o velho se guardava em puro êxtase e paz. Os grilos cantavam lá fora, Ligeiro já pregava os olhos, o gato brincava com as sombras do lampião. Na mesinha, a foto da falecida esposa e outros santos. Vinham à mente lembranças dos dois erguendo a choupana, plantando abóboras, trocando prosa a perder.
Não tiveram filhos, nunca ouviram falar dos United States, não foram alfabetizados nas artes de vencer a guerra. Hoje, ele reproduzia na terra tudo aquilo que ela lhe ensinara. “Desenrola aí, José!”. E desenrolava.
Com seus modos rústicos, José só tinha cabeça para acabar com as ervas daninhas que matavam suas hortaliças. Todos os dias, contava anedotas às cabritas e acariciava o pescoço da vaca que lhe dava leite. Era bruto em modos, mas seu coração tinha pouco a polir.
Um dia, deu com as neuras da capital. Ouviu no rádio que Getúlio Vargas ceifara a própria vida apertando o gatilho contra o rosto. Ficou meio bobo; a testa suava tentando entender as razões.
“José, não estás pronto para o mundo!”, alguém dissera.
Enganava-se a voz. Há tempos, ele era um dos poucos a, finalmente, o decifrar.
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