Alberto não avisou a ninguém que pegaria o carro e seguiria para longe, bem longe dos que amavam quem achavam que ele fosse, não quem ele era de fato. Por amor, ficava quieto, não se abria, sempre calado, e todos o julgavam dócil e fácil de lidar.
Balançava a cabeça em concordância, cedia fácil, deixava-se guiar pelo que convém. Dentro do peito, necrose. Aprendera muito cedo que vencer era jogar o mesmo jogo que o oponente; nem visto, nem lembrado, pensava ter paz. Só permaneciam no alto os anjos que repetiam ‘amém’. Antes da fuga, a estima dada a Alberto era diretamente proporcional a quantas vezes dissesse ‘sim’.
É por isso que ninguém compreendeu quando, na calada da noite, o caçula deu partida no motor abafado, sem despedidas, sem alarde, com um pouco de comida estocada no banco de trás. Souberam, sete meses depois, que viajara de Goiás a Floripa, sem nenhum contato amigo, com uma mão na frente e outra atrás.
Contou por telefone que, pouco antes da reserva zerar, conseguira um emprego de auxiliar administrativo e usaria todo o salário para se manter sem luxos e pagar um curso de design de jogos. Estava bem, mas não queria nada dos pais. Não voltaria à carreira de advogado sob hipótese alguma. Os ouvidos do casal no outro lado da linha transitavam confusos entre o alívio e o choque.
Resoluto, Alberto desligou o telefone. Tomou banho, trocou de roupa e deixou-se doer. Todos os tecidos da derme latejavam por enfim desatar-se do controle, da tirania, da castração. Agora, pensou, poderia curar-se, tinha uma vida pela frente, faria diferente, alargaria as cordas vocais.
Cinco anos depois, sua primeira filha nasceu. Tinha os olhos grandes, atentos ao mundo e, em tudo, parecia diferente do antecessor. Desde os primeiros sons, mal bambeava na palavra, pensava rápido e encarava profundo, fazia da própria vontade a mais firme das leis.
Em uma tarde muito tempo à frente, a jovem oradora da turma começou o discurso de formatura com palavras que encheram de lágrimas a dura – e tão enrijecida de travas – face do pai. Enquanto este ainda lutava para se libertar da culpa, do peso do mundo inteiro pelo simples existir, a jovem moça levantou-se e disse:
O que tiver de ser, sejas
Mas não assim, baixinho
Sempre a dar, sem receber
Finca teus planos na terra
Convida ao coro os passarinhos
E torna grito de guerra
A voz da tua intuição
Arma-te de mais perguntas que certezas
Deixa ir todo o desejo
De ser aceito e sacrificar a si
E, veja bem, eu te prometo
Os temores te olharão no olho
Será tua a chave-mestra
Não há juízo mais poderoso
Que, gentilmente, dizer ‘não’
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