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Não era constante. Algumas tardes aniquilavam o peito de Leonardo como um submarino implodindo em águas profundas – a dor lhe comia por dentro, empurrava um pouco mais a pele já côncava, desenhava os ossos da costela para qualquer leigo observador ser capaz de contar.

Outras manhãs, não raro na imediata sequência, lhe traziam lucidez e esquecimento. Sob o canto antigo dos pássaros, ele via que as coisas somente existiam, completamente alheias a ele, simples e independentes; para o mundo inteiro, pouco importava ele errar ou acertar.

Quando o peso era tamanho que mal conseguia levantar da cama, a Leo parecia que Deus lhe havia esquecido. As olheiras marcadas, o pelo do rosto formando ninhos dos quais subia um cheiro primitivo, estranhamente acolhedor. Quando acordava no dia seguinte e se aceitava, de súbito não sentia mais vontade de escrever com palavras difíceis, parecer inteligente, afirmar qualquer tese ou força… Apenas ser.

É que Leonardo era tudo e qualquer coisa entre as linhas do dicionário, um misto de febre e plena autocompreensão. Acaso o desvelassem, seria apedrejado. Não cometera os crimes graves da lei, mas trocava de personagem conforme as demandas de cada ciclo que prometia o acolher.

Passou anos a fio pensando nas próprias palavras. Como elas seriam recebidas pelos ouvidos alheios? O que diriam, meu Deus? Por sinal, tinha a forte impressão de que Ele era qualquer coisa, menos um homem branco e velho. Antes da escrita, lhe angustiava a escassez da escuta. Para que falar, se ninguém poderia lhe ouvir?

Às vezes, o palhaço… Quem sabe, o filósofo. Se preciso fosse, tudo era relativo. Queria ver, ouvir, morder com os olhos dos outros. Os rótulos… Sem sucumbir a eles, jamais conheceria o amor.

Na calada da noite, Leonardo despiu-se da pele de cordeiro e sentiu a pele de lobo também se desfazer. Retirou-a também; sob ela, pele de cordeiro, removível como a primeira.

Quantas camadas continha sob si?

E se o mundo não tivesse mais leitores suficientes para seus livros? A vaidade é desses demônios que apodrecem a escrita, mas como escapar da projeção que se cria de si e do deleite em vê-la aceita? Como ser cru, visceral, sem uma audiência? Como limpar-se de tudo – dos aplausos, dos sorrisos, do apego ancestral por pertencer?

O público esperava o preto no branco, o lobo ou o cordeiro, o bem ou o mal. Depois de um tempo, o público já não existia mais.

Leonardo não contou ao ciclo de amigos músicos sobre o prazer que sentia em estar em silêncio, em não ouvir coisa alguma, como um explorador espacial. Ao grupo culinário, não confessou seu desgosto profundo em cozinhar por obrigação.

Aos amigos da escola, ainda mostrava a face extravagante, incapaz de revelar seu novo vício em banhos longos e quentes. Mostrava ao amor de sua vida tudo e tão somente daquilo que a fizesse feliz.

Um monstro, um louco. Uma barba horrorosa. Tez desleixada, uma conversa sem fim com bichos… Coisa de quem perdeu o juízo, precisa de ajuda, não é capaz de caminhar entre os homens nem mais uma vez.

Oi, Deus. Já faz um tempo que eles só sabem do que eu os deixo ver.

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