Maria veio ao mundo imaculada, um chorinho contido em mil novecentos e noventa e um. Sem nome composto para não desperdiçar a saliva dos outros, só ‘Maria’. Não podia ser gente como cachorro é cachorro ou cobra é cobra. Sua natureza já lhe fora desenhada há séculos a fio.
A mãe bradava com orgulho que ela nunca teve cólicas. Foi o mais tranquilo dos bebês, não deu trabalho algum. E, de tanto poupar os outros, aprendeu que agradar era a fórmula mágica, ceder era condição primeira para existir. O próprio valor era proporcional à capacidade de cuidar. Os dedos cresceram e se mexiam rápidos sobre um violino. Em contraste com a música, a voz de Maria emudecia cada dia um pouco mais.
Os anos lhe somaram dotes femininos. Leitora romântica assídua, sensível às sutilezas do amor. Cozinheira de mão cheia… O prazer, entretanto, era nutrir os outros, não a si. Não sabia por quê.
Intérprete de músicas, sabia encantar sem expor incovenientes emoções difíceis. Sempre asseada, pose de dama, gestos discretos. Suave e cheia de graça como se deve ser.
Mas Maria guardava um segredo, uma bomba, um mistério; um animal que lhe crescia no peito e lhe mordia as entranhas ávida e lentamente, sem clemência ou pudor. A fera vomitara sangue pela primeira vez meses após o aniversário de treze anos. Desde então, movia-se sádica, primeiro entre as pernas, depois pelas mãos.
Com o passar do tempo, o animal de Maria se enchia de coragem e desbravava novos lugares. Ela não o expunha, porém; mantinha-o oculto em si.
O bicho tremulava internamente sem manifestações externas de sua presença. Por fora, Maria era só uma moça. Com duas décadas de vida, habituada a tudo guardar, ela sentiu a besta cravar as garras em seu pescoço e sufocá-la até a visão escurecer.
Um dia, conformada à ação recorrente da fera, Maria pecou. Furtiva, os dedos cruzados para que ninguém do seu agrado a visse, abocanhou a vida de tal forma que todos os caminhos se lhe fecharam para trás. O estrago estava feito, o andar cravou-se teimoso para frente; não queria mais voltar.
Por um milagre nada celeste, Maria pensou e o pensar arrebatou-lhe todas as esferas da vida. Pensava até sentir náusea, pensava até o outro não ser mais o outro, mas um ser tangível que, qualquer dia desses, ela poderia personificar.
E tudo se encharcou de uma dor imensa, transpassante, gultural. Domesticara-se desde muito cedo a adoecer pouco para não dar trabalho – afinal, o dever de cuidar era seu. Mas por dentro, na calada da noite, sob a luz de um céu sem lua… A besta-fera. Essa vontade de subir na mesa, desatar os seios, profanar palavras… O desejo de viver uma história em que nenhum príncipe precisasse chegar.
Sem dó ou juízo, o animal engolia os pedaços de Maria com ânsia de fazê-la oca. A culpa de existir era tanta que, a certo ponto, Maria parou de lutar. Nem o autoextermínio lhe era de direito; incomodaria os outros, lhes traria desconforto. Não adiantava se jogar de um prédio; sua única licença era a de ser mulher.
O animal interior lhe devorava o âmago e já se tornara um amigo, fonte de possível salvação. Sem órgãos, Maria ansiava tornar-se incapaz de sentir qualquer coisa. Um fio de esperança se iluminava no fundo de sua cabeça.
Talvez, torná-la vazia fosse ato de bondade. Tampar os ouvidos, deixar a poça de vômito secando no chão da sala sem limpá-la de imediato… A ignorância é bênção; desaprender, de uma vez por todas, o que se esperava que ela fosse enquanto mulher.
Maria envelheceu, fez sua passagem e, para ela, o além reservou as altivas portas do Inferno. Ao chegar, soprou-lhe o rosto um calor não experienciado em vida, sentiu inundar-lhe um abraço ou um grito ou um afago da mais pura novidade – uma voz feminina sem espectro físico exclamou: ‘Aqui, você pode ser’.
As portas de ferro se abriram e ela seguiu adiante. A voz bradou novamente palavras de conforto e aceitação.
Por ironia ou ação de um sábio, o lugar estava repleto de condenadas, nenhum homem ocupava aqueles domínios endiabrados. O ar era de aconchego; ao longe, risos tomavam conta do tempo e espaço nos mais variados tons da escala em decibel.
E Maria deparou-se com uma infinidade de senhoras alinhadas em cadeiras largas, acolchoadas. Todas confortáveis de pernas abertas sem o tique de tentar cobrir as partes; todas deixando o vento arejar os próprios pelos, sem exceção.
‘O Inferno é meu lugar’, pensou. Estava livre para não fazer os outros felizes. Podia rir-se de ser a vilã. Viveria histórias com dois ou três ou até quatro lados, se espreguiçaria com as nádegas viradas para cima sem medo de a Europa ou os bons costumes lhe tentarem colonizar.
A morte chegara e, com ela, a chance de ser um indivíduo. Seria bruxa, megera, uma cretina… Viveria a plenos pulmões sem culpa. Amém.
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