Agulha estrangeira

Um dia vazio em que nada era urgente. Nublada como o horizonte, ainda assim a garganta aspirava sentido. A indefinição, o aperto, o fogo, a falta de compasso… Tudo ela trazia na garganta, não no peito. Traqueia fechada, peito aberto.

Havia um tempo que Luíza amarrava os cadarços, virava a chave do apartamento e só se dava conta dos passos percorridos há quilômetros de casa, quase a tempo de voltar. Religiosamente, dia após dia. Expirava a própria potência sem constatá-la. Uma voz incógnita lhe apontava as setas, ditando-lhe certo e errado. O dever precisava ser feito, sem refletir.

A bem da verdade, as coisas não eram preto no branco. A razão alcançava sombras das ideias. Para pertencer à raça humana, a consciência podia tocar aqui e ali. Pensava o mínimo.

A brisa no rosto era o toque de Deus, e dissera-se-lhe que aquilo era bom. Alguém lhe receitou alimentos orgânicos, e os consumia desde então. Luíza sabia, sentia, previa o que lhe fazia bem. Os olhos de amêndoa focavam pássaros há milhas de distância, escusadas lentes de aumento. A pele sentia frio e os pelos se eriçavam involuntariamente. Estava viva; faltava apenas existir.

Ninguém ousaria dizer que não era uma pessoa. O sangue pulsava, o suor lhe escorria pelas costas, a boca educada mastigava rítmica o que lhe pudesse nutrir.

Mas corria em Luíza o fluido da letargia, o canto dos aceites, a paz dos acordos, a dor que não se vence pois nem se sabe que está lá. Nascera com noções de ética, mas as regras do viver não eram suas a criar, somente a seguir. Repetia passos de outrora sem protagonismo. Embarcara no catamarã da vida e saboreava o imprevisível; passageira, não capitã.

Ainda bem. Que mazelas estariam a seu encalço caso picada pelo mal de saber? Com que respostas certas perguntas poderiam lhe desgraçar? Pior… E se as respostas fossem ocultas, impenetráveis, inexistentes? Remédio é não querê-las; a cura para o desejo é o desejo de soltar.

E deu-se conta de que saíra de casa quando um extenso galpão comercial tomou o lugar dos prédios do bairro em que morava. Atravessara cinco quarteirões em ritmo agitado e a avenida agora abria a curva pela qual voltaria para casa. Um longo dia de trabalho lhe aguardava lendo jornal no sofá.

Parou para descansar como se deve e, então, aconteceu. Luíza intuiu o trágico. Em segundos, o estômago explodiu em ácido. De explicação a saber, uma agulha espetou-lhe a mão que ela encostara em uma árvore de vasta sombra. Quem a enfiara ali? Como fixá-la com a ponta perfurante para fora? Haveria agulhas de ponta dupla? Quem ditara como uma agulha deve ser?

A tomada de consciência. A origem das coisas. A linha que une todos os seres – sapiens, animais, vegetais e minerais. O inexorável que sempre vem, nesta vida ou na próxima.

Luíza apresentou-se à bússola interior, à voz da intuição, à dor e à delícia. Estar viva na própria presença seria algo a mais que prazer. Levou o dedo ferido à boca. Existir lhe devoraria certezas a fio.

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