A classe prendeu a respiração quando ela começou a falar; sua voz era rouca, as pálpebras cansadas de manter-se em pé. Lá fora, a garoa, lavando o sangue que esguichava das palavras. Às vésperas da aposentadoria, chegara enfim a hora de dividir com a turma suas próprias memórias póstumas – tudo que acontecera desde o dia em que morreu.
Por toda a sua vida, lecionara prosa e poesia, escolas literárias, Álvares de Azevedo, Lima Barreto, parnasianismo e maldizer. Clarice completava exatos 35 anos de magistério e estava pronta para tardes livres, passeios ao parque, noites bem dormidas e consommé*. Os alunos a fitavam – ela relatava amores, tecia planos, enumerava coisas que só há pouco percebeu.
Na manhã de um sábado, sentada na varanda de casa, ouviu um forte zumbido de abelha que ia e voltava, encolhia-se para logo se agigantar novamente. O barulho não passava de um plano de fundo pois, entre um gole de bebida quente e outro, desligava-se devorando as páginas iluminadas pelos primeiros raios de Sol.
De repente, o som parou. O silêncio ensurdecedor a distraiu da leitura e ela levantou a cabeça, procurando instintivamente pelo inseto que, como as hélices de um ventilador, lhe ajudavam a dormir.
Em um canto do teto forrado, uma aranha movia rapidamente o corpo e envolvia a abelha em uma teia superior às obras-primas da engenharia. A pequena presa se debatia sem emitir sons; agitava as pernas, mexia as asas, tentava escapar desesperadamente da trama que seria sua morada final.
Em menos de 30 segundos, a batalha cessou – o aracnídeo cumprira seu objetivo e Clarice rebentou: todas as dores do mundo irromperam de seu peito. Doeram-lhe as agonias da terra, as mazelas da guerra, o derradeiro instante em que, sozinhos, todos os seres agonizam e perecem, a ordem fria e brutal da cadeia alimentar.
Tinha 31 anos quando veio a falecer. Aos 66, no último dia de aula da classe de 92, dividia com os jovens pupilos tudo o que acontecera desde que fora arrebatada assim, sem mais nem menos, por uma Filosofia que só lhe trazia mais perguntas.
Era leve a forma com que falava de sangue, alvoroço, revolução, tão leve que os alunos não tinham escolha senão contemplar aquela cena de uma senhora curva exclamando tudo o que de mais improvável se poderia associar ao penteado contido e ao terninho até os joelhos em risca de giz. Ela queria despedir-se deles com histórias de grandeza e pequenez que vinham das tripas e cheiravam a sangue: o que ouvira da música que tocava apesar dela; o que vira das leis que se repetem sem ninguém perceber.
* Consommé é um caldo que se toma antes do prato principal e tem o intuito de preparar o nosso estômago para o prato seguinte; uma metáfora para indicar que a pessoa terá tempo para fazer uma refeição com calma após a aposentadoria.